Segunda-feira, Março 26, 2007

Para FM's

Foi ontem, na hora de dormir, que eu me toquei.
Foi quando eu nao conseguia pregar os olhos que eu descobri que, ainda sem saber, tenho voces duas gravadas em mim. Foi afastando pensamentos indesejaveis (mas, se eu der espaco, muito desejados), que veio a minha cabeca uma cena simbolica, onde voces duas estavam no meu colo. Esse momento, a sintonia de humores e sentimentos e tudo que tem a ver com voces duas me acalmam. Acho que eu ja teria pirado se voces nao estivessem aqui. Acho que as coisas seriam muito piores se esta cumplicidade familiar nao existisse.
Mas, quando nao da pra estar com voces, saibam que eu descobri que, ainda sem saber, tenho voces duas gravadas em mim. Dois seres leves que flutuam pelas minhas costelas. A terceira, eu ainda nao sei quem é, ou talvez seja eu mesma. Sao voces, por tudo que esse momento da vida marca: uma transformacao (acho "metamorfose" meio brega demais), um renovar, a primavera que vem chegando...
E foi isso que me fez pegar no sono.

O Jogo 2

Não é que a gente tenha empatado na cama, eu ganhei. Ou foi você que me fez ganhar?

Gostaria que tivesse sido embriagante, mas foi sò bêbado mesmo. Gostaria de poder apagar metade das coisas que você disse e que eu não consigo externalizar. Gostaria que a cama fizesse menos barulho e que a gente fosse com mais calma. Mas, neste ponto, eu sou parecida com você: quero tudo e agora, porque eu posso ter tudo agora -mesmo se eu ainda não sei se acredito que eu de fato te tive.
Se esse tudo foi um grande sonho que resultou numa ressaca consideravel, ela se concretiza pelos nòs que invadem o meu estômago quando penso na sua risada, no seu toque e em você de maneira geral. Preciso aprender a desfazer esses nòs pois, assim como a minha blusa, você me rasgou.

Sexta-feira, Março 16, 2007

Passo o passo

Uma grande sala. Um baile, como aqueles dos filmes. No centro, uma menina, de uns sete anos. Ela danca, gargalhando feliz. Ela gira graciosa, improvisa movimentos que passam desabercebidos por todos. Ela, na altura dos joelhos, olha para cima, sempre sorrindo, procurando alguem para acompanha-la.
Ao perceber que ningue se manisfesta, caminho em sua direcao e esticando as maos, nos nos unimos e dancamos.
A musica acelera temos um pouco de mal para acompanhar. Cada vez mais pessoas dancam ao nosso redor. Eles nos empurram sem nem ao menos pedir desculpas. Eles continuam num frenesi estranho tenso automatico. Minha companheira me olha seus labios estao agora esticados num sorriso falso. Eu nao me divirto mais continuo com os passos sigo a musica ignorada por todos em volta. Vejo o meu reflexo num momento furtivo meus olhos traduzem o panico que sinto. Empurrao. Quero sair mas a menina me segura. Nao consigo mais respirar preciso sentar preciso parar. Mas meus pes tambem entraram na danca automatica eu nao sou mais dona de mim nao comando mais meus atos. Empurroes. Vertigem. E agora eu so vejo joelhos. A menina me deixou e eu continuo aqui escrava de uma danca infeliz que nao me pertence.
Preciso sair preciso fugir. Mas antes, preciso encontrar alguem que acompanhe este passo.

Sábado, Março 03, 2007

O Jogo

Nos encontramos naquele almoço e colocamos as cartas na mesa. Você do meu lado, troca de olhares e palavras: foi dada a partida.
Passamos para a sala, você me ganhou com a escolha da musica. Eu te venci no pôquer, você me perdeu no xadrês.


Falta so declarar o empate no quarto.

Terça-feira, Fevereiro 27, 2007

Para escrever uma historia

Eu queria tanto, mas tanto, saber escrever uma historia unica. Com comeco, meio e fim. Que durasse mais do que algumas linhas e peripecias pouco interessantes.
Gostaria de descrever mil cenarios incriveis, com situacoes inesperadas para arrebatar o leitor e fazer com que este fique grudado nas palavras. Mas, infelizmente, o caso é outro, é o oposto.
Personagens banais, contando historias banais, sobre locais quase smepre banais. Minha inspiracao nao é concentrada o suficiente para desenvolver uma trama complicada mas ao mesmo tempo leve, como eu bem gostaria.

E que tal, se voce me ajudasse? Por exemplo, retribuindo o meu sorriso...

Sobre Paris

Paris me sufoca. Tanto que a respiração curta não é suficiente; ela é acompanhada de uma forte pontada no coração a cada vez que inspiro.
Eh atravessar a Notre Dame com algum acordeon tocando. Eh esperar o metrô e ouvir um sax no fundo. Eh justamente não ter ninguém do meu lado com quem dividir tudo isso. Eh o querer compartilhar essa alegria que por vezes me invade mesmo nos dias cinzamente molhados. Eh nao ter ninguém para beijar no Pont St. André des Arts.
Eh, em suma, não ter você comigo.

Terça-feira, Janeiro 30, 2007

???

Nao podia acreditar. Sentiu-se novamente aos vinte anos, como se na Cidade Eterna tudo parasse no tempo: igrejas, fontes, monumentos e Ella. Sem nenhuma pretencao.
Durante muito e muito tempo quis retornar, mas umas e outras mediocres obrigacoes a prenderam. Isso ja nao importa.
O seu sorriso era o mesmo. E vagou, ainda no inocente deslumbre de descobrir uma cidade ha muito querida. Talvez seus dentes estivessem um pouco mais amarelos. Colocou a mao no rosto, percebendo que as rugas invadiram-lhe inteiramente. Mas o sorriso...
Seus pés a levavam maquinalmente, percorrendo seus caminhos preferidos. Respirava forte e tranquila. E, por mais velha, angustiada e frustrada que fosse, nada e nem ninguem poderiam tirar esta cumplicidade d'Ella com a Cidade.
Compartilhavam uma certa adoracao pelas cores quentes dos predios e as suas respectivas flores nas sacadas; amavam secretamente este caos louco entre monumentos colossais.
O barulho do vento no meio das folhas secas na margem do Tibre, as tagerinas nos seus pés, e Ella sempre, sempre com este sorriso meio demente, quase tolo e sem sombra de duvidas turisticamente bobo.
Ao chegar num dos seus lugares preferidos acordou deste transe debilmente encantado. E foi ao avistar aquela agua caindo, abundante, maleavel, transparente, que Ella pos-se a chorar, inundada de lembrancas de um tempo em que foi feliz.
E a agua ali: limpida, passageira, ciclica, retornando mais uma vez ao lugar de onde vinha.






E Ella tambem.

Quarta-feira, Janeiro 10, 2007

Luz do sol

Em algum momento da noite, liguei o piloto automatico. Deixei as pessoas falando, minha cabeca (o objeto, mesmo) respondendo e fui direto te ver. Nao sei bem onde.
Em algum lugar historico, isso definitvamente. Se nao da Historia, da minha historia -que eu queria muito que fosse nossa. Uma musica qualquer tocava e foi neste exato momento que tudo aconteceu; em um segundo de pura distracao, parei de acompanha-la, juntando-me a voce.
Se eu pelo menos soubesse algo mais, talvez o teu aniversario, ou como é de verdade... Talvez assim, os textos poderiam ser mais inspirados e, quem sabe, inspirantes. Com aquela cor e dor de amor que brota em alguma esquina de uma cinza Paris. Mas nao é o caso.
Eu nada sei sobre voce, so que nestes teus olhos eu descobri uma luz que eu nao precisava e que ainda assim me aquece, nem que seja por meio de mediocres textos. Numa cidade onde seus nativos nao gargalham, foi ali -e bem ali- que eu encontrei talvez este certo je-ne-sais-quoi de que tanto falam; nao sei quem voce é e o que voce me causou, mas sei que ainda nos encontraremos, em algum beco que tem uma historia qualquer para ser contada; nem que seja o comeco da nossa.

Segunda-feira, Janeiro 08, 2007

Pesadelo

Esta noite tive um pesadelo. Sonhei que estava sempre, sempre acordada a te esperar. Ha quanto tempo estava neste estado de exaustao, nao sei. E voce com esta eterna mania de me dizer que esta a vir e nunca, nunca chegar.
Sonhei com a tua voz, ecoando dentro da minha cabeca, repetindo o tempo todo algo sobre o nosso encontro. Ele nunca aconteceu.
De certo modo, agora, voce me parece uma figura efemera; ja nao consigo mais tocar o teu rosto nas vagas lembrancas que tenho de tuas feicoes. Assim como o resto de ti, elas se dissiparam enquanto estava acordada.
Ao abrir os olhos sei que tive muito, muito medo: pulso acelerado e olhos grudados numa escuridao que nao me pertence, fiquei imovel, encolhida, piscando ocasionalmente, repassando tudo, tudo o que conseguia lembrar do sonho, de olhos bem abertos. E assim fiquei por um certo tempo, ate que com alguma coragem levantei e acendi a luz.
Sao quase seis horas da manha e eu nao consigo dormir, pensando se devo ou nao esperar-te.